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Sobre mudança de hábitos (ou: Pare de depender da sua força de vontade)

[N.da E.: Mais um post de Luluzinha querida, amada, escrito em meio a uma de nossas discussões durante o ano passado. O tema – mudança de hábitos – é recorrente no grupo. E os conselhos são pra guardar, publicar, registrar, grifar. Leiam com calma e paz no espírito. E pratiquem.]

Pinstriping

Acontece quase sempre do mesmo jeito. Maricota tem um problema, causado por um hábito não muito recomendável. Ela fuma. Ou bebe. Ou come “errado” e está acima do peso, ou a diabetes bate à sua porta. Tem Maricota que não se exercita, tem Maricota que perde prazo para pagar conta mesmo tendo dinheiro, tem Maricota que esquece de entregar trabalho. Maricotas, às vezes, fazem isso porque sempre fizeram assim. Maricotas chegaram aonde chegaram fazendo as coisas desse jeito.

De repente alguém olha pra Maricota e diz: “Chega. Agora não dá mais, dona Maricota. A senhora vai ter que parar de fumar – parar de beber – comer direitinho – se exercitar – pagar as contas em dia – entregar os trabalhos em dia. A senhora não assiste Globo Repórter? Não viu o último programa sobre sono – alimentação – finanças pessoais – atividade física? Cadê sua força de vontade?”

Nessa hora Maricota pensa. E resolve que sim, agora ela vai ser uma cidadã exemplar – sem dívidas por esquecimento – magra – esbelta – atleta – comer só coisas naturais, feitas em casa, que fazem bem – dormir oito horas por noite – economizar pra aposentadoria. Na primeira semana, tudo vai bem. Na segunda semana, ela esquece dos hábitos novos um dia, depois dois. Lá pela quarta semana, cadê mudança?

A única mudança é que Maricota está se sentindo uma banana sem força de vontade. Por que, afinal de contas, Maricota tinha que comer dois hambúrgueres? Faltar à natação? Vem culpa. Pra se livrar da culpa, Maricota pensa “ah, tudo bem, eu nem quero tanto assim emagrecer – fazer exercícios – economizar – dormir oito horas por noite. Não tenho força de vontade.” Até a próxima vez que é confrontada, quando volta tudo para o começo.

Deixa eu contar um segredo para vocês? A gente devia largar a força de vontade de lado. Parar de basear mudanças importantes na nossa vida em uma coisa tão abstrata. O que é força de vontade? Como eu meço a minha força de vontade? Como eu posso aumentar, o que diminui a minha força de vontade?

(Parênteses: aprendizagem. A autora desse texto é behaviorista. E o princípio básico do behaviorismo é que a gente aprende. Sempre. O tempo todo. A gente aprende a tomar café com leite todos os dias que toma café com leite de manhã e é gostoso e quentinho. A gente aprende a gostar de fazer alongamento quando para de sentir dores nas costas. E a gente também aprende a pagar as contas em dia quando ninguém liga pra cobrar – e sobra o dinheirinho dos juros pra contribuir com aquelas férias na praia. Tudo, o tempo todo, é aprendizagem. E uma das leis da aprendizagem é que quanto mais tempo a gente vem fazendo a coisa de um jeito, mais difícil é mudar. Entendeu porque não dá pra se fiar em força de vontade pra mudar uma coisa que você faz há dez, quinze, vinte, quarenta anos?)

Garotas e garotos. Esqueçam a força de vontade. Maricota querida, aqui vão algumas dicas para você.

Como facilitar a mudança de comportamento:

1.    Saiba por que você está mudando esse comportamento. Fica mais fácil mudar se a gente sabe porquê está fazendo isso (e “porque a minha vizinha falou que eu tenho que mudar x” geralmente não é um bom motivo, viu?)

2.    Escreva esse motivo. “Ah, Carla, precisa? Eu vou saber sempre, eu vou lembrar!” Vai por mim: escrever ajuda. Memória não é aquela coisa confiável que a gente quer acreditar. Você tem que saber porque quer economizar, porque quer emagrecer, porque quer fazer exercício. Escreva em um papelzinho e leve sempre com você. É bom ler esse papelzinho todos os dias (o primeiro hábito novo vai ser ler o papelzinho todos os dias. 🙂

3.    Passinhos de bebê. Lembra quando Você aprendeu a escrever? Primeiro as vogais, depois as consoantes, depois palavras inteiras, aí frases, textos e agora você está aí, escrevendo petições, posts, teses, cartas. Demorou, né? Por que você acha que esse aprendizado novo vai ser rápido?

4.    Defina qual vai ser o seu primeiro passo. Comece por algo fácil (você primeiro aprendeu a andar de mãos dadas com seus pais, depois soltou a mão deles, até finalmente sair correndo por aí). Mude esse hábito pequeno.

5.    Ups! Escorregou? Levanta e começa de novo. Já pensou se no primeiro tombo que você levou seus pais dissessem “é, essa criança não serve pra andar, vamos deixar no carrinho mesmo”? Todo mundo escorrega. Aproveite os escorregões para olhar o que atrapalhou: é o horário do exercício? É a falta de ir ao mercado? É passear no shopping com o cartão de crédito na semana da liquidação? Entendendo o motivo do escorregão fica bem mais fácil não cair de novo.

6.    Ajuste sua estratégia. A garrafinha de água pesa na bolsa? Onde você vai tem bebedouro? Onde eles estão? Não dá pra levar marmita todos os dias pro trabalho? Qual a melhor opção de almoço saudável e que caiba no bolso?

7.    Reconheça seus esforços! A gente tem a tendência de achar que “não é nada além da obrigação”. Menos cobrança, gente. Vamos reconhecer quão bacana foi beber dois litros de água hoje ou economizar o dinheiro do café depois do almoço? Vamos nos dar uma estrelinha por isso? Registre seus sucessos, pode ser num blog, num álbum, num diário. Quando desanimar e achar que não está conseguindo, volte pros seus sucessos. Viu como você consegue?

E, mais importante de tudo isso: paciência. Ninguém chega numa situação complicada do dia pra noite. Você também não vai sair dela do dia para a noite. Contenha a sua ansiedade, comece pequeno, pense numa estratégia. E boa mudança! Pense para frente, o que passou já foi. E boa mudança.

P.S. Você gostou do texto? Quer praticar mudança? A gente tem mais um pra indicar, só que está em inglês. É o “It’s not too late to change your habits”, publicado no Zen Habits, um blog do qual muitas de nós somos fãs. O link: http://zenhabits.net/not-late/. Vale ler – nem que seja na tradução do Google. 😉

foto:  Jon Matthies via Compfight